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sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Os Camelis e os Vianas

Se a vida costuma, vez por outra, nos aprontar surpresas que nos faz acreditar no chamado destino, a política também tem das suas. E esta eleição no Acre representa bem isso. A disputa pelos votos voltou a colocar em colisão duas das principais famílias políticas do Estado: os Camelis e os Vianas. Esta rivalidade já dura 20 anos, com cada lado lutando para mostrar quem dos dois tem mais força; uma queda de braço bastante interessante.

A vitória do jovem Gladson Cameli (PP) para o Senado recoloca um membro dessa influente família do Vale do Juruá nos caminhos dos irmãos petistas Jorge e Tião Viana. A relação destes grupos é quase de amor e ódio. Enquanto serviam aos interesses do Vianismo, os Camelis representavam o que havia de melhor na face da terra. Quando algo foi contrariado, não ficou pedra sobre pedra nas ladeiras de Cruzeiro do Sul.

O primeiro encontro ocorreu na eleição de 1994. Na disputa pelo governo estavam Orleir Cameli (tio de Gladson), Flaviano Melo (PMDB) e Tião Viana (PT). À época o petismo era uma terceira via em fase de crescimento, mas sem forças para enfrentar estas outras duas correntes tradicionais.

Ex-prefeito de Cruzeiro do Sul, Orleir foi eleito. O seu principal pecado foi ter na oposição um PT com seu estilo agressivo. Visto como um político de pouca liderança e com seu governo envolvido em várias denúncias de corrupção, Orleir enfrentava dificuldades na condução do governo. Tinha a oposição petista e de parte peemedebista.

Foi graças à fragilidade e a impopularidade do governo que o petismo surgia como a salvação para o Acre, após duas décadas de insucesso de governos da direita. Um Acre arruinado por 20 anos de desordem institucional possibilitou ao jovem Jorge Viana ganhar as eleições de 1998. Desde então 20 anos se completarão de PT no poder.

E estas duas décadas os petistas precisam agradecer aos Camelis. Primeiro pelo fato de o governo de Orleir ter contribuído de forma indireta por conta dos desgastes. (Uns dizem até que, estivesse Orleir disposto a ir para a reeleição em 98, certamente seria vitorioso).

Em segundo lugar, para manter sua hegemonia no Acre, o PT precisou fazer aliança com os mesmos Camelis tanto tempo demonizados por eles. O apoio da família era essencial para assegurar a manutenção do partido no Palácio Rio Branco com os votos do Juruá, região que até bem pouco tempo era anti-PT. A aliança foi selada com a indicação do primo de Orleir, César Messias, para ser o vice do sucessor de Jorge, Binho Marques (PT).

Messias permaneceu como vice de Tião Viana. Com o Juruá menos refratário, o PT “dispensou” o apoio dos Camelis neste pleito. Na verdade se viu obrigado a dispensar pelo rompimento do herdeiro político da família, Gladson, com a Frente Popular e sua ida para a oposição.

Do ponto de vista político as duas famílias estão rompidas desde 2010, mas restaram alguns acordos econômicos. (O pai de Gladson, contudo, optou por não ter mais nenhum contrato).

As eleições de 2014 ainda nem tinham se encerrado e Gladson já era apontado como o candidato da oposição para o governo em 2018. Ele é visto como o único capaz de por fim ao ciclo dos Vianas no governo. Seu carisma foi o suficiente para derrotar a poderosa máquina em torno da candidatura de Perpétua Almeida (PCdoB), que com todas as ofensivas não evitou a derrota massacrante.

Gladson Cameli terá os próximos anos para se consolidar como uma das grandes lideranças por meio de seu mandato no Senado, o espelho que refletirá seu preparo para subir ou não as escadarias do Palácio Rio Branco.

Se tudo caminhar como o “desenhado” pelo destino, caberá a um Cameli derrotar o petismo no Acre, depois deste ter sido vencedor em cima da desconstrução de um Cameli, isso dezesseis anos atrás.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Desistir da oposição?


O retorno melancólico das boas terras de Manacapuru levará a oposição a analisar o que foram as eleições deste ano. É preciso refletir sobre os erros, ver os pontos fracos e trabalhar para corrigi-los para as próximas disputas. Assim como 2010 e 2012, a bola bateu na trave e não entrou. O tão esperado grito de gol dos oposicionistas está entalado na garganta. 

Continuará como a ampla minoria na Assembleia Legislativa, e ainda perde quadros que garantiam certa qualidade no debate. Entre estas perdas estão Major Rocha (PSDB) de malas prontas para a Câmara dos Deputados, e a derrota de Gilberto Diniz (PTdoB), que, apesar de seu jeito bonachão, tinha discursos qualificado se incomodava bastante o governo.

A vereadora e deputada eleita Eliane Sinhasique (PMDB) caminha para ser a principal referência da oposição neste segundo mandato de Tião Viana (PT). O prefeito Marcus Alexandre (PT) agradece sua saída da Câmara Municipal e joga o pepino para o Palácio Rio Branco.

Desta disputa podemos destacar Márcio Bittar (PSDB) e Gladson Cameli (PP) como as grandes referências da oposição daqui em diante. A votação recebida por Márcio e Gladson os gabaritam a conduzir os processos para as eleições de 2016 e 2018. As eleições municipais não serão fáceis. Tirando raras exceções, a maioria dos prefeitos da oposição eleitos em 2012 foi um fiasco.

É pouco provável que se repita aquele boom do PSDB e PMDB nas prefeituras. Pode ocorrer um rodizio: estas cidades voltam para o governo, e as da FPA mudam tudo. Caberá às lideranças cobrar dos prefeitos mais profissionalismo e responsabilidade na administração dos municípios. 

Se assim não for, o PT retoma a hegemonia nas cidades. A conquista de mais uma cadeira para o Senado assegura à oposição uma força política considerável. 

Glason Cameli e Sérgio Petecão (PSD) podem fazer muitos estragos ao governo ou deixar tudo como está. A situação deles é complicada. Seus partidos estão na base de Dilma, mas adversários do Vianismo no Estado. 

É uma espécie de oposição dupla-face. Para não atrair a antipatia de um eleitor acreano dividido, e que votou em ambos pela campanha de se apresentarem como adversários do petismo. Agora precisam mostrar posições firmes e dizer ao cidadão o motivo de estarem no Senado. 

O PSDB continuará como a trincheira oposicionista em Brasília e aqui. E neste sentido Wherles Rocha pode se destacar fazendo barulho na Câmara, pegando no pé do governo Dilma e Tião. O fato de ficar sem mandato não impedirá Bittar de ser o líder em seu partido e outras siglas onde exerce influência. 

Seu trabalho será manter as bases, fortalece-las e até ampliá-las. Os próximos quatro anos vão requerer muitos estudos e dedicação para chegar afiado ao pleito de 2018, seja qual for o cargo a disputar: governo ou Senado. Na política é assim: acaba uma eleição e começa a próxima. E para quem não está no poder, os desafios são bem maiores. 
  

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

O segundo mandato de Tião

Passada a ressaca da vitória para uns e da derrota para outros, é momento de refletir e tentar analisar como serão os próximos quatro anos no Brasil e no Acre. No campo político, Tião Viana (PT) não enfrentará nenhuma dificuldade. Tem amplo domínio da Assembleia Legislativa e seu partido, sozinho, terá cinco das 24 cadeiras. Isso garante uma posição mais confortável ao governador, ficando menos refém do fisiologismo de sua atual base, reunida em torno do nanico PEN.

Como cada deputado petista eleito deve render todo agradecimento ao Palácio Rio Branco, não há motivos para Tião ceder a pressões em momentos importantes no Parlamento. Já no campo econômico os cenários não são os melhores. Logo na segunda-feira o mercado reagiu péssimo à reeleição de Dilma: a Bolsa caiu, o dólar subiu e as ações da Petrobras e outras estatais se desvalorizaram.

Na quarta houve um leve sinal de recuperação. Porém, as perspectivas são de baixo crescimento para o país nos próximos anos. O governo federal terá que fazer ajustes nada agradáveis. E esta economia, com vistas ao controle a inflação, terá impactos diretamente em Estados altamente dependentes das transferências da União.

Já de olho neste prognóstico, Tião Viana precisará apertar os cintos na Fazenda acreana caso queria que, de fato, o segundo mandato seja melhor do que o primeiro. Apesar de não ter feito o pior dos governos, deixou muito a desejar. Gastou por demais com cargos políticos e comprometeu a execução de seus principais programas de campanha d 2010.

Reeleito, o momento requer pegar o papel e caneta para saber onde melhor aplicar os recursos. O governador não pode trabalhar os quatro anos pensando em uma enxurrada de recursos federais enviados para o Ace. A filosofia até 2018 deve ser aproveitar melhor cada centavo de recursos próprios para não ficar tão refém do sobe e desce dos repasses de Brasília, que se comportará conforme o humor (ou a falta dele) da economia mundial.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Voto divorciado


No jargão político costuma-se chamar de voto casado a opção do eleitor de escolher candidatos de diferentes cargos mas que estão no mesmo partido ou coligação. Por exemplo, o voto em Tião Viana e Dilma Rousseff neste domingo, por serem do PT, é um voto casado. Mas nem sempre o cidadão é adepto desta prática, optando por se simpatizar pela figura do candidato do que pelo partido (Se Tião Viana dependesse da imagem do PT, não estaria comemorando a reeleição agora).

Desde 2002 o acreano tem se mostrado um tucano de bico aprumado na disputa presidencial, mas escolhendo o PT para o governo estadual. Neste domingo o eleitor da floresta se mostrou um aecista de carteirinha. O Acre rendeu ao tucano Aécio Neves a terceira maior votação proporcional do país, perdendo para São Paulo (reduto do PSDB) e Santa Catarina.

O senador mineiro ficou com 63,68% dos votos válidos. Em números quantitativos, ele recebeu o apoio de 243.530 acreanos. Votação bem superior à do governador reeleito, Tião Viana. O petista ficou com 196.509 votos, ou 51,29%. Aécio Neves também obteve mais apoio do que o candidato ao Senado, Gladson Cameli (PP), com 218 mil votos.

A grande questão é: por que os acreanos não casaram o voto do PSDB, escolhendo os tucanos Márcio Bittar e Aécio Neves? Se o deputado federal tivesse obtido mais 5% dos votos dados a Aécio, hoje o governador seria ele.

Mas esta tendência do “voto divorciado” não é de hoje. Lula e Dilma sempre perderam no Acre, mas os candidatos de oposição com palanque presidencial tucano não surfaram no banzeiro para desbancar o PT.

Uma explicação lógica não há, pois se houvesse a política não seria uma ciência humana. A opção do eleitor talvez se justifique pela visão mais crítica e rejeição ao governo do PT em Brasília do que aqui. Casar o voto do 45 pode não ser vista como a melhor opção, com o eleitorado receoso de alguma mudança. Os tucanos locais talvez não transmitam a mesma confiabilidade do que as lideranças paulistas.

O eleitor pode aprovar o petismo local, mas rejeitar o nacional. Isso soa contraditório, pois não fosse o apoio de Brasília os petistas acreanos não se sustentariam tanto tempo no poder, administrando um Estado pobre e que depende em mais de 70% da ajuda federal para tocar investimentos de retornos eleitorais.

Portanto, se formos analisar o que passa pela cabeça do eleitor, precisaríamos de um confortável divã para meditarmos até as eleições de 2016. Uma conclusão é certa: voto casado não funciona. Ou seja, o discurso do “unidos somos mais” não cola no eleitor acreano. É cada um por si em busca de seus respectivos votos.

domingo, 26 de outubro de 2014

A máquina pesa, companheiro

Após mais uma disputa campal e quase sanguinária, o PT assegurou o seu quinto mandato à frente do governo acreano. Com isso, o partido que teve como um de seus maiores militantes a ex-senadora Marina Silva, chegará a um ciclo de 20 anos na nossa hegemonia política. Depois de uma vitória apertadíssima em 2010, Tião Viana (PT) não conseguiu reverter a rejeição ao petismo em seus quatro anos de governo. Prova maior disso foi a realização do segundo turno deste domingo.

Para um líder que afirmava aos quatro cantos ter 90% de aprovação popular partir para uma campanha agressiva contra os opositores, uma outra vitória apertada, numa diferença de 10 mil votos, mostra que, não fosse o peso sufocante da máquina do Estado, certamente o partido teria chegado ao fim do ciclo nesta eleição.

Dizer que Tião Viana fez um governo ruim seria injusto. O mais certo seria um governo atabalhoado, confuso e, em alguns pontos, hilário. Traumatizado com as urnas de 2010, procurou redesenhar a roda por uma reeleição mais tranquila. Para isso, tomou para si as principais bandeiras de seu adversário, Tião Bocalom (DEM). Deixou a “florestania” do irmão Jorge Viana (PT) de lado e adotou uma linha mais “desenvolvimentista”, investindo pesado no campo.

Foram vários projetos de Norte a Sul do Estado. Tomou para si a Bocalândia e fez a Cidade do Povo. O Ruas do Povo serviu para conquistar a simpatia do eleitor abandonado na lama e na poeira. Mesmo com todos estes investimentos Tião não foi capaz de amenizar a fadiga de material da gestão petista. A eleição para a prefeitura de Rio Branco foi outra guerra épica, com a vitória de Marcus Alexandre (PT) sendo  possível somente com muito uso da máquina.

O PT montou uma estrutura de dominação do Estado que lhe assegura a permanência no Poder. Uma legião de acreanos depende diretamente de milhares de cargos pagos pelo governo e prefeitura. E sabemos que a cada eleição estas pessoas são obrigadas a empunhar a bandeira pelo candidato de plantão caso não queiram perder o emprego. Estes 10 mil votos de diferença representam bem isso.

Temos uma sociedade acreana bastante dividida, o que é simbolizado pelos resultados desde 2010. É somente com a dominação destes cargos políticos que o petismo tem conseguido a sua sobrevivência. Mas isso faz parte do jogo. O uso da máquina ocorre por todos os partidos, em menor ou maior grau. Os tucanos não dominam São Paulo há mais de 20 anos por serem bonzinhos.

O governo ganha perdendo (se bem que o importante é vencer). Obteve uma reeleição no sufoco e perdeu mais uma cadeira para o Senado. O PT pode comemorar a dominação na Assembleia Legislativa e nos demais Poderes do Estado. É esta dominação, que não poupa Legislativo, Judiciário e outros que também assegura esta sobrevivência.

O futuro da oposição? 2014 mostrou que a sua divisão não é a melhor das opções. Ou se unem de fato numa grande frente partidária e trabalham para a construção de um projeto seguro, ou continuarão a bater na trave e deixar que a vontade de mudança do eleitor seja derrotada pela força abrupta do aparelho estatal.

Que venha 2016!  

Mais 4 anos

Tião Viana é reeleito para mais quatro anos no governo do Acre 

O médico Tião Viana (PT) foi consagrado nas urnas na noite deste domingo para comandar o Acre por mais quatro anos a partir de 2015. O petista venceu o adversário Márcio Bittar (PSDB) com 51,30% dos votos válidos.

Já o tucano obteve 48,70%. A vitória assegura o quinto mandato consecutivo do PT à frente do Palácio Rio Branco, dando ao partido 20 anos de hegemonia no Estado. Depois de uma eleição acirrada no primeiro turno, Viana venceu Bittar com uma diferença de pouco mais de 10 mil votos.

Em relação à votação do último dia 5, a diferença caiu para mais de 60 mil votos. Apesar de garantir a reeleição, Viana não foi capaz de conter o favoritismo do presidenciável tucano Aécio Neves no Acre. Ele venceu Dilma com uma margem de folga: 63% contra 36%.

Com o resultado, a militância petista invadiu as ruas de Rio Branco para comemorar a vitória. O tradicional estacionamento da Arena da Floresta é o ponto de encontro. Os votos na capital, por sinal, foram bastante disputados. Apenas um por cento separou o petista do tucano. Enquanto o petista obteve 99 mil votos, Bittar ficou com 97 mil. Com isso, Viana reverteu o resultado do primeiro turno quando os votos da oposição, somados, ultrapassaram a Frente Popular.

Já em Cruzeiro do Sul, segundo maior colégio eleitoral, apenas 800 votos evitou o petista de amargar a derrota. Em Sena Madureira, com o terceiro maior número de eleitores, Bittar saiu vitorioso: 56% a 43%.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

DF, o melhor lugar para se viver na Amazônia


A Frente Popular tem deitado e rolado com uma gravação do senador Sérgio Petecão (PSD), cabo eleitoral de Márcio Bittar (PSDB), em que ele declara ir embora do Acre caso o PT vença as eleições de domingo. Os governistas usam o áudio para exemplificar o descompromisso de lideranças da oposição com o Estado, dizendo que os mesmos só querem usar o Acre para se eleger e depois dar as costas, indo morar bem longe.

Mas se a oposição tem políticos que se encaixam neste perfil, o petismo também não fica atrás. Vide o caso do ex-governador Binho Marques. Ele tinha como bordão de governo a transformação do Acre no melhor lugar para se viver na Amazônia.

Repetia tal frase à exaustão, fazendo algumas pessoas até a acreditar nisso de fato. Binho era um destes, tanto que, tão logo passou a faixa de governador para Tião Viana (PT), pegou as malas e foi morar em Brasília. Não há como Binho negar que o Acre é o melhor lugar para se viver na Amazônia estando ele no Planalto, com a pensão de R$ 24 mil, paga pelos acreanos, por ter sido governador por quatro anos.

O Acre é tão bom para Binho que nem vir aqui para pedir voto para seu colega Tião Viana ele veio. Não fosse a disposição de Jorge Viana em ir atrás do parceiro, certamente o eleitor nem se lembraria quem foi o governador entre 2007 e 2010. Jorge é um excelente cabo eleitoral. Além de ficar distribuindo santinhos no semáforo, ele sai de terno e tudo das sessões do Senado em busca de depoimento dos companheiros de luta de antigamente.

O programa do PT em que Binho ressurge das cinzas comprova isso. Jorge aparenta ter acabado de sair do Senado. Ainda de gravata mas sem o paletó, ele procura um cenário para tentar disfarçar que ambos estão a milhares de quilômetros de terras acreanas.

Afinal de contas, quem mesmo só quer usar o Acre para se dar bem?


quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Carta ao Povo Acreano

O candidato do PSDB ao governo do Acre, Márcio Bittar, tem enfrentado neste segundo turno uma das maiores investidas já realizadas pela Frente Popular para desconstruir a candidatura e a imagem de um adversário. Talvez ofensiva semelhante só a patrocinada contra Tião Bocalom (DEM), também no segundo turno pela prefeitura de Rio Branco, em 2012. Assim como há dois anos, o PT nunca tinha se sentido tão ameaçado em perder uma cadeira importante quanto agora.

Bittar tem sofrido todo o tipo de ataque. A militância vermelha espalha boataria pelos quatro cantos do Estado, apresentando o tucano como um retrocesso. Sua vitória seria o fim do Bolsa Família, o abandono da Cidade do Povo e Ruas do Povo, a demissão em massa de terceirizados e cooperados. No debate de quarta ficamos sabendo –vejam só – que também vai privatizar a nada lucrativa OCA.

Para enfrentar este tsunami de boatos que acabam por virar verdade –afinal, uma mentira contada tantas vezes torna-se verdade – Bittar passou a adotar estratégia semelhante à de um petista, isso há doze anos. A chamada Carta ao Povo Brasileiro foi essencial para assegurar a vitória (enfim) de Luiz Inácio Lula da Silva na eleição de 2002. Aproveitando oito anos de desgaste de governo FHC, Lula liderava todas as pesquisas.

Porém, enfrentava a resistência do mercado. A cada crescimento nas sondagens as bolsas caiam, o dólar subia e a economia ia pela lona. Para reverter estes efeitos, Lula redigiu a carta assumindo o compromisso de não alterar em nada as bases da política econômica implementada nos governos tucanos. Com este sinal, Lula ganhou a simpatia do mercado e teve caminho livre para o Planalto.

A pergunta agora é: terá Márcio Bittar o mesmo efeito de Lula? Numa espécie de Carta ao Povo Acreano, registrada em cartório, ele se compromete a não fazer nada daquilo que seus oponentes espalham por aí. Assegura a manutenção do Bolsa Família (algo que como governador jamais poderia eliminar), manter os contratos de terceirizados e cooperados, concluir as atuais obras e não atrasar o pagamento dos salários.

Num Estado pequeno, de conversa de pé de ouvido, onde uma conversa sempre é aumentada, o tucano tem um desafio enorme. Ele terá até sexta, dia do último programa eleitoral, para massificar a mensagem de sua carta, e fazer seus principais pontos ecoar entre aqueles que foram “contaminados” pela boataria.

Se tudo sair como o previsto, mais uma vez teremos uma carta que entrará para a história da política. Se antes ela foi usada pelo PT para derrotar o PSDB, o efeito agora seria o inverso.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

O saudoso regime militar?

Mensalão petista, mensalão tucano, petrolão, trensalão. São tantos “ãos” ligados a corrupção, que o brasileiro está enojado de ler o noticiário. A cada dia as coisas só pioram. É dinheiro na cueca, na meia, é dinheiro percorrendo os oleodutos da Petrobras que ninguém sabe mais quem é quem neste jogo todo.

E justo num dos momentos mais importantes de nossa história, quando vamos às urnas escolher o futuro presidente da República, percebe-se um pensamento estranho na nossa sociedade.

Pode ser um caso ali e outro acolá, mas parece ganhar força a cada manchete de um político flagrado surrupiando os cofres da nação: a simpatia das pessoas pelo regime militar que dominou o País entre 1964 e 1985. “Naquele tempo não existia isso”. “Se o cara roubasse era punido”. “Tem que fechar esse Congresso e colocar o Exército na rua.”

São frases como essas que se ouve de pessoas mais velhas e outros nem tanto assim. Os abusos nos casos de corrupção e a impunidade destes crimes têm levado os brasileiros a um ponto de intolerância que os leva a defender o absurdo.. As pessoas estão preferindo abrir mão de um regime democrático para voltar a viver numa ditadura, na esperança de que a corrupção seja amenizada.

Dizer que não existia corrupção nos governos militares é como afirmar que o mensalão foi tudo uma farsa da “imprensa golpista”. A questão é que a repressão à liberdade de imprensa impedia a divulgação de qualquer notícia negativa aos comandantes de então.

Com uma imprensa tendo o seu papel de fiscalizador dos Poderes assegurado pela Constituição pós-ditadura, o cidadão tem a oportunidade de saber como, de fato, os governantes cuidam do bem público.

A transparência é hoje uma realidade, bem diferente dos anos de chumbo. Fechar o Congresso é o mais grave dos atentados contra a democracia. Sendo bem ou mal composto, sua existência é vital para tentar controlar a sanha de Poder do chefe do Executivo. No papel, as suas funções são as mais belas possíveis, mas na prática a realidade é outra.

Muito mais do que ocupar o Senado e a Câmara com tropas, nossa melhor arma é o voto. Além do mais, precisamos exigir que o governo pare de transformar o Legislativo numa espécie de sua secretaria ou ministério.

A reforma política –a mãe de todas as reformas – precisa ser votada urgentemente. Ou os congressistas se mobilizam neste sentido, contrariando alguns de seus interesses, ou não achem ruim quando soldados estiverem no plenário, e a sociedade aplaudindo.

O Brasil não precisa e nem queremos um novo regime militar –aliás, não aceitamos nenhum tipo de ditadura, seja de esquerda ou de direita. Precisamos de políticos melhores e com coragem para enfrentar este modelo político-partidário falido e corrupto.

O nosso atual sistema pode até estar péssimo, mas é melhor continuarmos nesta bagunça democrática, onde temos a liberdade de dizer o que penamos (mesmo que nem tão livres assim) a um regime opressor que costumava torturar e eliminar seus opositores.

G7 (Parte 2)

MPF denuncia sobrinho de Tião Viana por formação de quadrilha e fraudes 

O MPF (Ministério Público Federal) apresentou na última sexta-feira (17) denúncia à Justiça contra o sobrinho do governador do Acre, Tião Viana (PT), Tiago Viana Neves, por suposta formação de quadrilha e fraudes em licitações. Este é o primeiro desdobramento do processo judicial da operação G7, deflagrada em maio do ano passado pela Polícia Federal, que prendeu secretários do governo e empresários da construção pelos mesmos crimes.

Tiago Viana foi incluído no processo por, ao longo das investigações, a polícia encontrar uma eventual participação dele em esquema de desvio de verbas do SUS com um dos empreiteiros envolvidos. Segundo o MPF, Narciso Mendes Júnior, em parceria com outros sócios, fundou a Centro Medicina Diagnóstica Ltda.

Como então diretor de análises clínicas da Secretaria de Saúde, e usando de sua influência no governo, Viana Neves teria favorecido a empresa com informações privilegiadas e atuando para que ganhasse as licitações para exames de radiologia.

Todo o esquema, segundo a denúncia, teria ocorrido em 2012 e acabado após a operação policial.  O MPF afirma que a criação da Centro já tinha como objetivo abocanhar as licitações do sistema responsável pela digitalização de imagens radiológica do Estado, da Secretaria de Saúde. Os procuradores dizem que, oito meses antes da concorrência pública, o acordo já estava fechado para que a empresa fosse a vencedora.

Tiago Neves e Narciso Mendes chegaram a ser presos pela Polícia Federal no dia 10 de maio. O sobrinho do governador obteve liberdade um dia depois. Narcisinho, como o empreiteiro é conhecido, e outros 14 acusados, incluindo o ex-secretário de Obras e agora assessor especial de Tião Viana, Wolvenar Camargo, ficaram na cadeia por 40 dias.

O processo da G7 ainda investiga os supostos crimes nos processos de licitações do “Ruas do Povo”, programa do governo que tem como meta asfaltar todas as ruas do Estado. Narciso Mendes Júnior também é investigado em suposta formação de cartel para fraudar e eliminar concorrentes nas licitações do “Ruas do Povo”.

domingo, 19 de outubro de 2014

Confusão numérica

Vox Populi e Ibope apontam vitória de Márcio Bittar 

À primeira vista o leitor pode ficar confuso com esta manchete. Afinal de contas, não foi bem isso que você leu na última semana na imprensa acriana. Por lá as letras gigantes apontavam a vitória consagradora do candidato à reeleição, Tião Viana (PT). Mas explico o porquê deste meu “gancho” (jargão jornalístico para o foco central da reportagem). Levando em consideração os erros grotescos destes dois institutos no primeiro turno, o mais provável é que o vencedor no próximo domingo (26) seja Márcio Bittar (PSDB).

Analisemos os números: a última pesquisa Ibope divulgada dias antes do 5 de outubro, apontava a reeleição de Tião sem o segundo turno. Porém, iremos nos ater aos números de seu adversário direto. Bittar aparecia com 23% das intenções, empatado com os mesmos 23% de Tião Bocalom (DEM).

Ao fim o tucano ficou com 30% dos votos, e Bocalom, 19%. Levando em consideração o resultado, o Ibope subtraiu de Bittar ao menos 7%. Se agora no segundo turno o instituto mostra o candidato com 47%, então é certo dizer que, na verdade, Bittar tem 53%. Já Tião Viana tenderia a ficar com os mesmos 49% da margem de erro do primeiro turno (Ele tinha 47%)

Já com o Vox Populi e seus contratos milionários com o Palácio Rio Branco, a situação é bem mais bizarra. O levantamento do começo do mês indicava que Márcio Bittar teria 19% dos votos. Ou seja, o tucano foi prejudicado aí em 11%. No segundo turno o Vox Populi  o mostra com 43%. Na verdade, reavaliando o erro, o adversário de Tião Viana teria 54%.

Já o governador que o Vox Populi apontava como reeleito com 53%, ficou com 49%. Considerando a margem de erro, o governador continuaria com os mesmos 49%. Esta foi a conclusão à que o blog chegou semanas atrás quando afirmou que Tião Viana tinha alcançado o seu teto de votos. Seria mais fácil a ascensão de Bittar do que a sua. De fato foi o que aconteceu.

O tucano foi o mais beneficiado pela migração dos eleitores de Bocalom. O petista, contudo, mostra claros sinais de estagnação –mesmo com os números maquiados de Ibope e Vox Populi.

Agora o Instituto Delta aponta a virada de Bittar. É impossível? Não. Levando em conta que seu candidato a presidente lidera as pesquisas nacionais e no Acre, Bittar tende a ser carregado por esta onda.  Por aqui o Ibope mostra Aécio Neves (PSDB) com 59%, contra 32% de Dilma Rousseff (PT).

Por estas e outras a minha manchete acima não é tão bizarra assim. O resultado concreto só no domingo. Posso estar completamente certo, como completamente errado. É esperar o Instituto Eleitor.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

As cutucadas de Lula nos Vianas

“Tem muita gente que pergunta pra mim: Lula, por que você gosta tanto do povo do Acre, se em muitas eleições ele não votou em você? É porque não é assim que a gente governa, a gente não governa olhando para o resultado da eleição. Eu gosto de quem votou em mim e não gosto de quem não votou em mim. Não é assim. O meu caráter não é esse. Eu não governo esperando que todos os dias as pessoas acordem me agradecendo. Eu duvido que em algum momento da história da existência do Acre, o Acre recebeu metade do dinheiro que recebeu nestes 12 anos com Dilma e Lula. E nunca perguntei em quem as pessoas votavam. Nunca perguntei que religião tinham, e muitos menos que time torcia. É porque eu achava que o Brasil tinha de ser mais igual, e tinha que tratar o Acre com o mesmo respeito que a gente tratava São Paulo. O presidente da República que tiver vergonha ele não vai tratar bem aqueles que são seus amigos e tratar mal aqueles que não gostam dele. Porque não é uma relação de gostar, mas de tratar o povo com respeito.”

Estas belas palavras foram proferidas pelo ex-presidente Lula (PT) num palanque montado ao pé da bandeira do Acre, no calçadão da Gameleira, debaixo de um sol escaldante de 40 graus. Ao seu lado estavam os irmãos Jorge e Tião Viana, também do PT.

Este discurso representa a síntese de um bom estadista. Não à toa Lula é uma das principais lideranças políticas brasileiras da atualidade. De fato o Acre foi muito beneficiado nos dois governos Lula, e também –eu acho – que no de Dilma, mas numa escala bem menor. É provável que os últimos quatros anos de FHC, com Jorge no Palácio Rio Branco, tenham sido bem mais vantajosos para o Acre do que na comparação com a gestão da presidenta.

Outro ponto é uma cutucada indireta de Lula aos governos petistas no Acre. Se ele realizou um governo republicano, ajudando os Estados sem distinção da cor partidária do governador, por aqui esta política, infelizmente, não prevalece. Sabemos que no Acre os prefeitos da oposição são tratados a pão e água pelos governos de Jorge, Binho Marques e Tião Viana.

Que a partir destas palavras o governador Tião Viana, se reeleito no outro domingo (26), repense suas relações institucionais com as prefeituras. Que estas palavras de Lula sejam impressas e pregadas nos gabinetes da Casa Rosada.